segunda-feira, 26 de abril de 2010

Palavras ao vento / Pedro Bial

http://www.youtube.com/watch?v=Lx-jS0bRFog&feature=related


A primeira letra do alfabeto é também a primeira letra da palavra


amor e se acha importantíssima por isso!

Com A se escreve "arrependimento" que é uma inútil vontade de

pedir ao tempo para voltar atrás e com A se dá o tipo de tchau

mais triste que existe: "adeus"... Ah, é com A que se faz

"abracadabra", palavra que se diz capaz de transformar sapo em

príncipe e vice-versa...

Com B se diz "belo" - que é tudo que faz os olhos pensarem ser

coração; e se dá a "bênção", um sim que pretende dar sorte.

Com C, "calendário", que é onde moram os dias e o "carnaval",

esta oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data

marcada. "Civilizado" é quem já aprendeu a cantar ´parabéns pra

você` e sabe o que é "contrato": "você isso, eu aquilo, com

assinatura embaixo".

Com D , se chega à "dedução", o caminho entre o "se" e o

"então"... Com D começa "defeito", que é cada pedacinho que

falta para se chegar à perfeição e se pede "desculpa", uma

palavra que pretende ser beijo.

E tem o E de "efêmero", quando o eterno passa logo; de

"escuridão", que é o resto da noite, se alguém recortar as

estrelas; e "emoção", um tango que ainda não foi feito. E tem

também "eba!", uma forma de agradecimento muito utilizada por

quem ganhou um pirulito, por exemplo...

F é para "fantasia", qualquer tipo de "já pensou se fosse

assim?"; "fábula", uma história que poderia ter acontecido de

verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e "fé", que é

toda certeza que dispensa provas.

A sétima letra do alfabeto é G, que fica irritadíssima quando a

confundem com o J. G, de "grade", que serve para prender todo

mundo - uns dentro, outros fora; G de "goleiro", alguém em quem

se pode botar a culpa do gol; G de "gente": carne, osso, alma e

sentimento, tudo isso ao mesmo tempo.

Depois vem o H de "história": quando todas as palavras do

dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer

coisa que tenha acontecido ou sido inventada.

O I de "idade", aquilo que você tem certeza que vai ganhar de

aniversário, queira ou não queira.

J de "janela!, por onde entra tudo que é lá fora e de "jasmim",

que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar

assim.

L de "lá", onde a gente fica pensando se está melhor ou pior do

que aqui; de "lágrima", sumo que sai pelos olhos quando se

espreme o coração, e de "loucura", coisa que quem não tem só

pode ser completamente louco.

M de "madrugada", quando vivem os sonhos...

N de "noiva", moça que geralmente usa branco por fora e vermelho

por dentro.

O de "óbvio", não precisa explicar...

P de "pecado", algo que os homens inventaram e então inventaram

que foi Deus que inventou.

Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê.

E R, de "rebolar", o que se tem que fazer pra chegar lá.

S é de "sagrado", tudo o que combina com uma cantata de Bach; de

"segredo", aquilo que você está louco pra contar; de "sexo":

quando o beijo é maior que a boca.

T é de "talvez", resposta pior que ´não`, uma vez que ainda

deixa, meio bamba, uma esperança... de "tanto", um muito que até

ficou tonto... de "testemunha": quem por sorte ou por azar, não

estava em outro lugar.

U de "ui", um ài" que ainda é arrepio; de "último", que anuncia

o começo de outra coisa; e de "único": tudo que, pela facilidade

de virar nenhum, pede cuidado.

Vem o V, de "vazio", um termo injusto com a palavra nada; de

"volúvel", uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que

querem que ela queira.

E chegamos ao X, uma incógnita... X de "xingamento", que é uma

palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém; e

de "xô", única palavra do dicionário das aves traduzida para o

português.

Z é a última letra do alfabeto, que alcançou a glória quando foi

usada pelo Zorro... Z de "zaga", algo que serve para o goleiro

não se sentir o único culpado; de "zebra", quando você esperava

liso e veio listrado; e de "zíper", fecho que precisa de um bom

motivo pra ser aberto; e de "zureta", que é como fica a cabeça

da gente ao final de um dicionário inteiro.